O lado bom da vida (livro e filme)

Por Fernanda Sarate

Uma história sobre amor, loucura, esperança e como Kenny G pode afetar a sanidade das pessoas 😛

Primeiro, eu assisti ao filme. Adorei. Agora, tempos depois, com um empurrãozinho do Clube de Leitura da Cultura, eu li o livro. Primeiro lado bom: o livro é ótimo. Segundo lado bom: ainda gosto do filme. Se eles são iguais? Não. Se a adaptação é fiel? Nem  tanto. Mas o lado bom é que dá para gostar tanto do livro quanto do filme; a essência segue, porém com as devidas adaptações de linguagem.

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Sinopse do livro

Pat Peoples (!!) é um ex-professor de história, com pouco mais de 30 anos, que acaba de sair de uma instituição psiquiátrica, depois de um grande esforço de sua mãe para liberá-lo. A essa instituição ele se refere como “o lugar ruim”, onde todos são negativos e não acreditam em finais felizes.

Acontece que, para Pat, que sofre de transtorno bipolar, ele ficou apenas alguns meses nesse “lugar ruim”, mas, na verdade, foram alguns anos. Algo no passado de Pat, que ele não lembra bem, fez como ele fosse parar lá. Esse algo fez com que ele fosse afastado de sua família e de sua esposa Nikki. Assim, com sua saída da instituição, ele nutre fortíssimas esperanças de que o “tempo separados” termine e que ele possa retomar o seu relacionamento com Nikki.

Em casa, Pat reencontra com um de seus antigos amigos, que o convida para um jantar em sua casa. Lá, ele reencontra Tiffany, cunhada desse seu amigo, que se recupera de um grande trauma, e com quem Pat desenvolverá um relacionamento bem pouco tradicional.

Pat precisa lidar com diversos problemas: seu pai praticamente não fala com ele, ninguém crê que uma reconciliação com Nikki seja possível, seus amigos acreditam que ele amaldiçoou seu time de futebol americano, ele sofre com lapsos de memória e, ainda, por cima, ele é assombrado por Kenny G e seu sax soprano!

O lado bom do livro

A escrita de Matthew Quick é despretensiosa e gostosa de ler. A história é encantadora, as personagens, mesmo as secundárias são bem desenvolvidas, sobretudo a mãe de Pat e seu terapeuta, Cliff. É daqueles livros bons de ler depois de algo mais denso ou quando precisamos renovar o nosso estoque de esperanças.

Sejamos francos: não há nada de inovador, na verdade, o livro conta com alguns clichês. Mas a forma como ele trata essa linha cada vez mais tênue sobre o que é sanidade e o que é loucura e o modo como ele traz a realidade ao absurdo da vida, o torna cativante.

Além disso, Matthew Quick ganha nos detalhes: os títulos dos capítulos são interessantíssimos (“um fogo laranja entra na minha cabeça”, “uma colmeia cheia de abelhas verdes” e “como se ele fosse Yoda e eu fosse Luke Skywalker treinando no sistema Dagobah” são alguns exemplos).

Ao longo do livro, são citadas diversas obras clássicas da literatura. Pat lê esses livros, que ele considera deprimentes, como forma de impressionar Nikki, que leciona literatura. Há quem não tenha gostado dessas citações, sobretudo porque há spoillers importantes sobre os livros. Não gosto de spoillers, mas gosto quando autores contemporâneos citam obras clássicas (John Green faz bastante isso), criando uma nova onda de interesse sobre essas obras.

O lado bom do filme

Sem dar muitos spoillers para não me contradizer (:P), é preciso falar que, obviamente, o filme não é uma cópia fiel do livro, é uma adaptação da linguagem literária para a cinematográfica. A relação de Patt com o pai é abordada no filme de forma diferente, entretanto considero que preservando a essência da relação difícil e frágil (ok, com um pouco mais de açúcar no filme). Alguns fatos do livro não aparecem no filme (adorei o capítulo no qual eles vão para a praia, por exemplo, e isso não é nem mesmo citado na adaptação, o que não impacta negativamente, mas vale a leitura ;)). O significado e as condições que ocorrem o concurso de dança no qual Patt e Tiffany participam, é diferente também. A participação de Danny, amigo que Patt conheceu no “lugar ruim” é aumentada no filme, o que funcionou muito bem, Danny é engraçado, empático e cativante.

Agora, a forma como as obras acabam, não é igual. Gosto dos dois finais, embora, claro, o do cinema seja mais hollywoodiano, com alguns cliclês (isso sem desmerecimento algum) e o final do livro seja mais intimista, “pé no chão” e mais dependente do significado que o leitor quer dar a ele.

Livro: O lado bom da vida
Autor: Matthew Quick
Tradutor: Alexandre Raposo
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 254

Classificação:

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A leitura flui muito facilmente, então se nos primeiros capítulos você se sentir cativado pelo enredo, certamente você lerá o livro muito rapidamente. Não é um livro que mudará a história da literatura ocidental, mas que pode nos dar um sopro de esperança e de diversão em tempos difíceis. Eu acho que é uma boa contrapartida, não? 😉

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A adaptação de A Metamorfose, de Kafka, para mangá

Por Fernanda Sarate

Mesmo quem não leu já deve ter ouvido falar da história do rapaz que, certo dia, acorda e percebe que se transformou em um inseto monstruoso. A Metamorfose, de Franz Kakfa, é um dos maiores clássicos do século XX e, recentemente, ganhou uma adaptação para mangá. Confira a nossa avaliação!

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Primeiro, vamos falar um pouco sobre o texto original.

A Metamorfose, de Franz Kafka

Kafka escreveu A Metamorfose em apenas 20 dias! Sua “pequena história”, como a chamou, foi publicada pela primeira vez em 1915 e traz como protagonista o caixeiro-viajante Gregor Samsa, que trabalha arduamente para sustentar sua família (pais e uma irmã mais jovem). Certo dia, entretanto, depois de uma noite intranquila de sono, Gregor acorda e percebe que se transformou em um inseto! Aaaahn? E isso, lembre-se, em 1915!!

A partir daí, a narrativa apresenta os dilemas de Gregor, que mantém sua consciência humana no novo corpo animal, e os de sua família que não sabe como lidar com a nova situação do antigo provedor da casa.

Todas essas transformações são narradas com um realismo mágico, sóbrio e atroz. Há diversos estudos abordando os possíveis significados de A Metamorfose, alguns acham que ele mostra a decadência do estilo burguês, outros que mostra o desespero do homem moderno perante a opressão e sua vida vida sem sentido. Há interpretações calcadas desde a psicanálise até o marxismo. E você, como interpreta essa metamorfose? Lembre-se de deixar um comentário ao final deste post! 😉

A adaptação para o mangá

Primeiramente, acho importante dizer que considero válidas e oportunas as adaptações de cânones da literatura para HQ ou mangá.

Dito isso, a primeira ressalva: infelizmente não foi preservada a orientação de leitura dos mangás nesta versão, isto é, da direita para a esquerda e de traz para a frente (em nossa visão ocidental). Acho que isso descaracteriza um pouco o mangá e retira um pouco da experiência de leitura propiciada por esse formato.

Segunda ressalva: nesta versão, se perdeu um pouco da profundidade dos dilemas de Gregor e da sutileza nas transformações vividas por ele e sua família, sobretudo pela irmã.

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Agora, os pontos positivos: primeiramente, devo dizer que as ilustrações são muito boas e complementam bem os textos do mangá. Outra questão é que, por tratar-se de uma outra linguagem, adaptações foram feitas. Se algo de introspectivo se perdeu, novos fatos e personagens foram adicionados à narrativa, o que enriquece o seu universo e oferece novas possibilidades de interpretá-la.

Um trecho específico que foi adicionado ao mangá e que não consta no texto original, achei bem interessante e pertinente. Ele inclui ali um pouco da riqueza da cultura oriental (visto que estamos lendo um mangá, acho isso relevante) e expande mais a obra. Nesse trecho, é apresentada uma anedota contada pelo filósofo Chuang Tzu, sobre o “sonho da borboleta”:
“Um belo dia, ele sonha que virou uma borboleta. Mas não percebe que era um sonho… E sai vivendo como borboleta…Aí, de repente ele desperta e se vê sendo o que ele sempre foi… ou imaginava que era.
Ele nunca saberia dizer se era verdadeiramente um homem que um dia sonhou ser uma borboleta… ou se era uma borboleta a sonhar que era um homem…”.

Livro: A Metamorfose (mangá)
Autor: Fraz Kafka (com adaptação e ilustrações da Equipe East Press)
Tradutor: Drik Sada
Editora: L&PM
Número de páginas: 208

Classificação:

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Acho que é super recomendado para quem ainda não leu o texto original, é um ótimo primeiro contato com a obra e com o mundo kafkiano. Já para quem já leu a versão original, é importante ter em mente que adaptações foram feitas, pois trata-se de uma linguagem diferente, a do mangá, que possui seus códigos próprios. Se visto dessa forma, a leitura será mais prazerosa e possibilitará uma expansão na compreensão do universo de Kafka ou, pelo menos, o contato com um pedacinho da cultura oriental.  Não precisa pressa, se achar necessário, releia depois o texto original (foi o que fiz, se você não tem o livro impresso, no Domínio Público tem uma versão para download).

O triste fim do menino Ostra e outras histórias, de Tim Burton

Por Fernanda Sarate

Você sabia que Tim Burton lançou um livro com poemas e ilustrações suas? Confira a nossa resenha especial de Halloween do livro O triste fim do menino Ostra e outras histórias.

Quem é Tim Burton

Além de nosso muso 😉 Tim Burton é um cineasta que imprime uma marca autoral em todas as suas obras, mesclando terror com um humor bem peculiar. É diretor de filmes como Os Fantasmas se Divertem, Batman, Edward, Mãos de Tesoura, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, A Noiva Cadáver, Sweeney Todd, O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet e Alice no País das Maravilhas. Além disso, atuou como produtor de O Estranho Mundo de Jack.

Tim Burton

Em diversos desses projetos, ele trabalhou com o ator Johnny Depp (outro de nossos musos 🙂 ) e com Danny Elfman (é dele, por exemplo, a trilha de Os Simpsons) compondo as trilhas de seus filmes.

Com estreias para 2016, estão dois aguardados projetos de Tim Burton: a adaptação cinematográfica do livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children) e Alice Através do Espelhoa esperada sequência de Alice no País das Maravilhas.

E se você também é fã dele, prepare-se: em 2016, São Paulo receberá a exposição O Mundo de Tim Burton no MIS. A exposição já passou por diversos locais do mundo e traz em suas instalações os bastidores e curiosidades da carreira de Burton.

E para essa data, escolhemos falar do livro desse mestre do Halloween – do Halloween no Halloween, do Halloween no Natal, com ele, é Halloween o ano inteiro!

O triste fim do menino Ostra e outras histórias

Livro lançado em 2007 composto por 23 poemas escritos e ilustrados pelo Tim Burton. Difícil enquadrá-lo em uma categoria apenas. Ele pode ser para crianças, embora traga alguns temas mais pesados e até politicamente incorretos (mas do jeito característico do cineasta), há poeminhas curtos que ficam ainda mais divertidos a ilustração das suas personagens. Ele pode ser para adultos, embora também traga a simplicidade e a ludicidade do universo infantil. Ele possui passagens tristes e passagens engraçadas. Em suma, ele é uma ótima incursão no mundo de Tim Burton.

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Cada poema apresenta uma personagem única, bizarra e intrigante criada por Burton, há, por exemplo, o Menino Robô (resultado da insólita reunião carnal de sua mãe e de seu forno micro-ondas), o Menino Múmia (que é confundido com o objeto a ser perfurado na brincadeira de pinhata das crianças que – surpresa! – encontram insetos e não doces em sua cabeça) e o Menino Palito que – literalmente – queima de paixão pela Garota Fósforo.

Alguns dos poemas foram livremente adaptados para pequenas animações, confira dois exemplos:

O projeto gráfico do livro é caprichado. Seus poemas são curtos são curtos, melancólicos, engraçados, sonoros e surreais, comumente permeados por temas como o conflito nas relações afetivas.

A tradução de poemas é algo sempre delicado. A tradução feita por Márcio Suzuki primou por manter, até onde foi possível, os jogos de palavras e figuras de linguagem que são muito utilizados na escrita de Burton.

Livro: O triste fim do pequeno menino Ostra e outras histórias
Autor: Tim Burton
Tradutor: Márcio Suzuki
Editora: Girafinha
Número de páginas: 123

Classificação:

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Leitura imperdível para todo e qualquer fã de Tim Burton!

Resenha: Quem é você, Alasca?

Por Fernanda Sarate

Quem é você, Alasca? é o romance de estreia de John Green. O primeiro amigo. A primeira garota. As últimas palavras.

Sendo bastante sincera e específica: até a página 136, eu não estava gostando tanto do livro. Estava com uma expectativa alta, pois havia acabado de ler Cidades de Papel, que gostei muito por suas camadas de profundidade escondidas. Não estava encontrando isso em Quem é você, Alasca?. Não estava achando o livro ruim, mas sim mais fraco do que o esperado. A trama estava lembrando tantas outras que estamos acostumados, mostrando a rotina e a transição de adolescentes americanos para a sua vida adulta e  os laços de amizade entre um grupo de amigos. Pois eis que chegamos à página 136 e… buuuuum… algo acontece. E o livro fica realmente bem interessante.

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Caixa de pássaros: um livro sobre o medo

Por Fernanda Sarate

O livro de estreia de Josh Malerman é um thriller tenso sobre a essência do medo.

A trama

Malorie é a protagonista do livro, conhecemos seu enredo por meio dos olhos (já, já, você vai entender o tachado) da perspectiva de Malorie . A narrativa intercala capítulos sobre o passado e o presente, porém, em ordem cronológica, tudo inicia com boatos nas mídias sociais, que logo viralizam, sobre algo que está fazendo com que pessoas, de diversas partes do mundo, suicidem-se e ataquem quem estiver por perto de forma violenta. Logo surgem teorias que afirmam que as mortes acontecem após as vítimas verem algo. Só não se sabe bem o quê. Malorie, de início, mostra-se cética quando vizinhos começam a cobrir suas janelas e a andar de olhos fechados na rua. Porém, quando Malorie perde alguém, ela começa a acreditar. E a temer. Não apenas por sua vida: ela acabou de confirmar que está grávida.

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Ela havia visto em um jornal um anúncio de algum benfeitor que oferecia uma “casa segura” e que estaria aceitando novos hóspedes. Malorie, aqui, já acredita que  o mal ocorre por meio da visão de algo perturbador demais que faz com que as pessoas enlouqueçam, então ela não abre os olhos durante o percurso que, embora curto, torna-se muito perigoso.

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Livro Star Wars: O Código do Caçador de Recompensa

Por Eli Martins

Num blog não muito distante…

Disney e o universo expandido

Após a compra da franquia Star Wars pela Disney, em 30 de outubro de 2012, o mundo espera com ansiedade por um novo filme. Essa compra, porém, não implica apenas em filmes da saga Star Wars – tem um universo inteiro que se completa com seriados, HQs, livros e diversas outras mídias, formando um universo expandido que todo o fã de Star Wars conhece ou já ouviu falar.

O problema é que esse universo, após a aquisição da Disney, foi deletado. De acordo com o comunicado divulgado, além dos seis filmes, apenas a animação The Clone Wars faz parte do cânone (deixando de fora livros, games e HQs). O universo expandido, porém, ainda estaria à disposição dos roteiristas, servindo de inspiração para os futuros lançamentos. Mas isso não é o fim do mundo (nem o fim do Universo), é só o inicio de muitas possibilidades de refazer alguns erros de cronologias em histórias já lançadas.
Entretanto, hoje, vim mesmo falar do livro Star Wars: O Código do Caçador de Recompensa.

O livro Star Wars: O Código do Caçador de Recompensa

Terminei de lê-lo recentemente e achei uma ótima leitura, pois, além do fato de eu ser fã de Star Wars, na minha opinião, os caçadores de recompensas são a melhor parte da saga – inclusive superando os Jedi e os Sith.

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O  livro, lançado pela Bertrand Brasil (selo do Grupo Editorial Record), já faz parte desse novo universo expandido, pois sua narrativa ocorre no momento em que
o império domina o universo, entre o final dos Episódio III e VI.

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Silo: primeiro volume de uma trilogia intrigante

Por Fernanda Sarate

Silo é um dos novos livros com elementos de distopia e de ficção científica mais empolgantes e intrigantes que li. É o primeiro volume de uma trilogia escrita por Hugh Howey e já tem seus direitos de adaptação vendidos para o cinema.

O início: como o livro surgiu

Hugh Howey levou três anos para concluir o livro, enquanto trabalhava em uma livraria. Seu primeiro passo foi publicar a série no formato de contos em e-book, (nove, no total) , por 99 centavos cada um na Amazon. Rapidamente, foi conquistando os leitores, tornando-se best-seller da Amazon, chegando a vender 10 mil cópias mensais. Com isso, várias editoras fizeram contato com o autor, que recusava as propostas, pois não gostaria de perder os lucros obtidos por meio da autopublicação. Até que, enfim, fechou contrato com a editora Simon & Schuster, que apenas publicaria seus livros impressos, permitindo que Howey permanecesse com a venda dos livros digitais.

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Sinopse

O que você faria se o mundo lá fora fosse fatal, se o ar que respira pudesse matá-lo? E se vivesse confinado em um lugar em que cada nascimento precisa ser precedido por uma morte, e uma escolha errada pode significar o fim de toda a humanidade? Essa é a história de Juliette. Esse é o mundo do Silo.

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