Resenha livro Habitar, de André Fernandes

Por Fernanda Sarate

Habitar é o segundo livro de André Fernandes. De nossa parceira, editora Hedra, o volume traz uma seleção de poesias com a temática da cidade esvaziada de sentido, remetendo à metáfora da modernidade líquida, de Bauman. Confira nossa resenha e veja, no final, um benefício especial para os leitores do blog!

 livro Habitar de André Fernandes

O desafio de resenhar poesia

Resenhar livros de poesia é sempre um desafio. No filme A Grande Aposta, há uma citação que diz “A verdade é como poesia e a maioria das pessoas odeia poesias”. A poesia, talvez, possa ser comparada à arte contemporânea que vemos, por exemplo, nas Bienais de Artes Visuais. Ao contrário de outros movimentos anteriores, essa não é uma arte mais contemplativa, ela é, sobretudo, provocativa, por isso, não deve ser validada em dicotomias como belo x feio e gostei x não gostei, mas, talvez, em termos de o que nos provoca, como nos sensibiliza, o que suscita.

O termo alumbramento também é válido aqui.  Título de um poema de Manuel Bandeira e uma das chaves de leitura desse poeta, o alumbramento é uma espécie de epifania que está na raiz da poética, é o que nos surpreende e adiciona um sopro de algo a mais, de novidade, em uma rotina que, sem alumbrar, não teria brilho. 

Livro Habitar, de André Fernandes

Assim, o livro Habitar não apresenta poemas engraçadinhos ou queridinhos. Ele toca em feridas e te pergunta como você se sente sobre isso. André Fernandes fala sobre cidades contemporâneas, sobre como elas estão esvaziadas de sentido perante o olhar de um modelo de sociedade que se esvai.

Lembrei bastante da metáfora de modernidade líquida, do sociólogo Zygmunt Bauman, na qual tudo é fluido, volátil e incerto nos dias de hoje. Os valores e os referentes morais perdem, também, sua fixidez. O poema “mendigo”, p. 35, (negritos meus) me fez lembrar disso:

mendigo

homem de estatura mediana
magro, de dieta moderada
dentes por tratar e filharada
mulher a queima roupa

passa o tempo em traslado
leva a família em sacos pretos

os sacos não são disfarces
cada um finge (não ver)
por motivo diferente

Segundo Bauman, o mesmo ocorre com as relações, que são frágeis, rasas e fugazes. Há um poema que se chama “amor”, na página 30, que remete a isso:

amor

perguntei a ela o que fazer
ela disse nada –

devolver o tempo para a eternidade

O projeto gráfico é caprichado, com ilustrações de trechos, trajetos e percursos sólidos que contrastam com a liquidez das cidades contemporâneas. O livro é dividido em cinco conversas, cada uma formada por um conjunto de poemas.

Dica: dentro de nossa parceria com a editora Hedra, Habitar e outros livros de literatura brasileira, têm condições especiais para os leitores do Para Ler e Ver, basta acessar este link.

 

Livro: Habitar
Autor: André Fernandes
Editora: Hedra
Número de páginas: 64

Classificação:

zumbi_avaliacao

 

Para gerar os alumbramentos e realmente nos impactar, é preciso fugir da armadilha de ler muito rapidamente um livro de poesia. Por isso, leia e saboreie com calma e com tempo cada poema, perceba o que ele lhe faz sentir. Tente dar um sopro de solidez nesses tempos líquidos 😉

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